A pesquisadora Jéssica Cardoso Carvalho, egressa do curso de Bacharelado em Ciências Sociais da Universidade Federal do Tocantins (UFT), desenvolve uma investigação científica focada nos processos de transmissão de saberes tradicionais associados ao artesanato em capim-dourado. Atualmente cursando o mestrado em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP), a cientista tocantinense analisa as cadeias de operações técnicas e os modos de ensino-aprendizagem que estruturam a atividade no Tocantins. O estudo dá continuidade a uma trajetória acadêmica iniciada na graduação da UFT, articulando conceitos de territorialidade, patrimônio imaterial e identidades quilombolas.
A base empírica da pesquisa fundamenta-se em métodos etnográficos aplicados junto a associações de artesãos localizadas na região do Jalapão. Sob a orientação do professor Guilherme Moura Fagundes, no âmbito do coletivo de pesquisa Chama da USP, o projeto intitulado O artesanato de capim-dourado: técnica e aprendizagem busca mapear a Antropologia da Técnica por trás da costura com a fibra do buriti. O objetivo central é documentar o saber-fazer e as dinâmicas corporais e cognitivas que garantem a perenidade dessa manifestação econômica e cultural de matriz africana e indígena no cerrado.
Trajetória na UFT e conexões com os saberes circulares quilombolas
A linha de pesquisa de Jéssica Cardoso foi estruturada entre 2019 e 2021 durante o programa de Iniciação Científica e a elaboração de sua monografia de conclusão de curso na UFT, sob orientação da professora Suiá Omim Arruda de Castro Chaves. O trabalho integrou o Projeto Cosmopolíticas do Cerrado, unificando a revisão bibliográfica especializada à experiência prática da pesquisadora, que atuou na comercialização de peças artesanais em Ponte Alta do Tocantins antes do ingresso no ensino superior. Em 2025, os resultados parciais dos estudos geraram a publicação de um artigo científico na revista Humanidades & Inovação.
Os referenciais teóricos mobilizados na dissertação abordam o conceito de “saber circular”, formulado pelo pensador quilombola Antonio Bispo dos Santos. Esse arcabouço conceitual descreve o envolvimento comunitário necessário para o manejo ecológico, a coleta sazonal regulamentada e a salvaguarda dos territórios tradicionais. A pesquisa de campo incluiu o acompanhamento direto de mestras artesãs, como Durvalina Ribeiro de Sousa, originária do quilombo de Mateiros, cujas técnicas foram observadas detalhadamente durante as demonstrações realizadas no Pavilhão da Cultura da Agrotins 2026.
Relevância social frente aos impactos ambientais no cerrado
A orientação acadêmica destaca a relevância das Ciências Sociais no registro das estratégias de resistência cultural de comunidades tradicionais diante das transformações demográficas e econômicas na Fronteira Agrícola do Matopiba. A investigação lança luz sobre as pressões territoriais decorrentes do avanço das monoculturas, da supressão vegetal nativa e do uso de defensivos agrícolas, fatores que interferem na disponibilidade ecológica das hastes do capim-dourado nos campos úmidos tocantinenses.
A pesquisa documenta também os pontos de contato e intercâmbio técnico entre as comunidades afro-diaspóricas e os povos originários do Tocantins, com destaque para as mulheres da etnia Akwe/Xerente, que compartilham de metodologias similares de trançado e costura. Esse mapeamento das relações afro-indígenas contribui para subsidiar políticas públicas de proteção ao patrimônio imaterial, aprimorar os selos de indicação geográfica do artesanato e fortalecer o turismo de base comunitária como alternativa de renda sustentável para as populações tradicionais do Estado.
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Fonte: Universidade Federal do Tocantins – UFT
Foto: Arquivo pessoal / Divulgação